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Bons ventos impulsionam eólicas no RN

Energia eólica atrai investidores ao Rio Grande do Norte, como a Companhia Paranaense de Energia (Copel), que pretende concluir a construção de cinco complexos até 2019. Ao todo, o setor já gerou cerca de 40 mil empregos no estado

Por Chirlei Kohls

De Curitiba (PR)

Era tarde de sábado. O céu estava azul com algumas nuvens no município potiguar de São Bento do Norte. De voz suave carregada por um sotaque potiguar misturado a vivências fora do Rio Grande do Norte, Milton Duarte de Araújo, 52 anos, contou como viu sua história e a do estado onde cresceu mudar com o despontamento da energia eólica a partir de 2009.

“É loucura!”, exclamou. Lá fora, o barulho da força dos ventos que fazia funcionar os sete aerogeradores de um dos parques eólicos da Companhia Paranaense de Energia (Copel) lembrava Araújo de que era tudo real. A Copel começou a operação de parques eólicos próprios no RN em fevereiro do ano passado e até 2019 pretende alcançar 663,6 MW de capacidade eólica em cinco complexos. A quantidade é suficiente para abastecer uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, o equivalente a cerca de duas vezes a população de Natal somada aos residentes de Mossoró.

foto 01Araújo é proprietário de terras arrendadas em território potiguar para construção de parques eólicos – sendo três áreas para a Copel – e é projetista no setor desde 2008. No caso de arrendamento de terras, o proprietário recebe royalties durante a vida útil do projeto pela concessão para exploração de energia eólica. Além disso, é advogado e sócio-diretor da MDA Serviços, empresa do ramo de energia com sede em Natal (RN) que atua desde a captação e identificação de áreas para possível instalação de parques eólicos até a contratação da área, por exemplo. A empresa é projetista de seis parques da companhia paranaense e presta serviços para empresas do ramo de energia com atuação em todo o Brasil e com sede nas regiões Sul-Sudeste.

Tão logo, Araújo descreveu o desenvolvimento das cidades potiguares que têm parques eólicos em operação ou construção. “Você vê casas sendo reformadas, mais pessoas comprando na região, aquisição de bens, uma economia movimentada. É uma situação visível. A mudança é substancial. Urbanização e higienização também são mais adequadas”.

O diretor-presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Jean-Paul Prates, ressalta que o desenvolvimento em energia eólica no RN é interiorizado e considera a injeção de capital na economia um ciclo virtuoso. “Normalmente eram cidades esquecidas pelo mundo, que viviam basicamente da agricultura familiar e do programa Bolsa Família. Aí chega a energia eólica e transforma a economia local. As cidades se beneficiam diretamente com o investimento de capital. É serviço de hospedagem, mecânicos, oficinas, alimentação”.

foto 03Para ele, o segundo maior ganho é a capacitação de pessoas. Ao recordar a visita que fez ao município de João Câmara em 2008, comenta que a cidade estava no limbo, no nada e hoje tem um Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e cursos especializados em eólica. “A transformação é absurda”, enfatiza Prates.

Natural do município de Santo Antônio, interior do Rio Grande do Norte, Araújo deixou o estado aos 26 anos em busca de oportunidades na região Sul-Sudeste do país. Durante os cerca de 20 anos em que esteve fora do local de origem, se formou em Direito e trabalhou em empresas de geração de energia hidráulica e térmica. Voltou ao estado em que construiu a maior parte de sua história com o desafio de desenvolver a energia eólica. “Meus filhos me questionavam se eu não estava ficando maluco com a história de vender vento. Hoje vemos que a dimensão que a energia eólica tomou aqui é muito grande. Não consigo entender como em tão pouco tempo trouxe tudo isso”, diz Araújo.

Potencial

foto 02Ele conta que a implantação da maioria dos parques começou em 2010. No RN, 26 municípios têm participação eólica, sendo que 16 já possuem parques operando comercialmente, um total de 97, e dez possuem parques em construção ou já contratados. De acordo com dados do Cerne, até 2020 projeta-se a operação comercial de 412 parques eólicos. Um parque que em média tem 30 MW de capacidade instalada pode abastecer cerca de 69.500 residências.

Ainda segundo o Cerne, o RN é o estado que mais produz energia proveniente da fonte eólica, em média um pouco mais de 1.000 MW de energia por mês. A previsão é que até 2020 tenha aproximadamente cinco GW de capacidade instalada, sendo possível gerar em torno de 2.250 MW médios de energia elétrica por mês. Hoje é exportador de energia, pois o que é produzido por fonte eólica já abastece as necessidades do território potiguar. O restante de energia escorre na rede elétrica pelas linhas de transmissão e é distribuído para municípios de outros estados.

Prates explica que a partir de 2009, quando ocorreu o primeiro leilão federal de compra de energia eólica, esta energia foi considerada competitiva por si só. “As tecnologias de fontes renováveis evoluíram e as tornaram competitivas.

Houve uma redução significativa no custo de equipamentos. A dinâmica de leilões em energia no Brasil é referência no mundo. Subsídios governamentais em outros países estão sendo revistos com base no modelo brasileiro de leilões reversos”, explicou.

Os investimentos feitos para parques eólicos são feitos via leilões reversos de energia (Ambiente de Contratação Regulada – ACR) e mercado livre (Ambiente de Contratação Livre – ACL), quando a empresa produtora de energia negocia diretamente com a empresa que comparará a energia e o contrato entre ambas é registrado na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCCEE). “O ACL permite que você contrate energia direto. Mas isso é minoria e ocorre com contratadores de relevância, como shoppings, redes de supermercado etc. A regra é fazer o leilão”, explica Prates. Nos leilões, o projeto apresentado normalmente já tem locação definida, com indicação de onde o parque funcionará. “É uma competição de projetos” complementa.

O vento não para

A força dos ventos do Rio Grande do Norte já trouxe investimentos de cerca de 10 bilhões de reais, segundo dados do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), com aproximadamente 1/3 desse valor disseminado em compras diretas nas cidades potiguares com parques eólicos. As características favoráveis já atraíram investimentos de grupos estrangeiros, como Voltalia (França), Gestamp (Espanha), Força Eólica (Grupo Neoenergia – Espanha), e grupos brasileiros, como Companhia Paranaense de Energia (Copel – Sociedade de Economia Mista) e os paulistas Serveng, CPFL Renováveis e Renova.

O diretor-presidente do Cerne, Jean-Paul Prates, acredita que o sucesso do estado com a energia eólica não se deve apenas a condições ambientais favoráveis dos ventos. “Criou-se condições para os leilões. Houve um trabalho do governo do Estado com uma atenção especial aos projetos de eólicas, como licenciamento ambiental de projetos complexos, preocupação com infraestrutura, planejamento de linhas de transmissão, entre outros”.

Até o final do ano passado, a Copel instalou no estado 330,5 MW de potência em 15 parques de três diferentes complexos. Os cinco complexos que a companhia paranaense pretende operar no RN até 2019 abrigarão 28 parques eólicos em seis cidades: São Bento do Norte, São Miguel do Gostoso, Touros, Parazinho, João Câmara, Pedra Grande. No total, o investimento é de R$ 3,5 bilhões.

foto 04Diretor da Copel Renováveis, Ricardo Dosso afirma que a escolha do RN para sede dos complexos da Copel considerou o potencial de geração de energia da região, aferido por análise de dados como frequência, intensidade e direção dos ventos, além do perfil do terreno – quanto mais plano e aberto, melhor. “Importante lembrar que a regularidade dos ventos no Brasil, especialmente no Nordeste, proporciona ao país o melhor fator de capacidade (FC) para geração com esta fonte no planeta”. Ele aponta que as dificuldades mais comuns são logística para transporte de grandes peças, demora de licenciamento ambiental e pouca qualificação profissional. “Mas a parceria com o governo estadual tem permitido superar estes desafios, principalmente com a melhoria da rodovia RN-120”, reforça Dosso.

Projetista no setor, Milton Duarte de Araújo acredita que há um contexto evolutivo e contínuo no Estado até 2025. “Hoje o maior investidor em energia eólica no RN é a Copel. E isso não é gratuito. O RN tem os ventos mais cobiçados do mundo. São os chamados ventos alísios, que em 95% do tempo têm uma única direção, são constantes e não estão sujeitos a rajadas”, explica Araújo.

Força de oportunidades

Além das mudanças visíveis no desenvolvimento das cidades que sediam parques eólicos, outro benefício do despontamento desse tipo energético é a geração de empregos proporcionada com os arrendamentos de terra. Segundo a presidenta da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, o aumento de 46% da capacidade instalada de energia eólica no Brasil, em 2015, representa acréscimo de 2,75 GW de novas instalações – número recorde.

Com isso, o país passou a ter 8,27 GW de capacidade instalada, o que representa um investimento total acumulado superior a R$ 52 bilhões, geração de 130 mil empregos em toda a cadeia produtiva e cerca 16 milhões de toneladas de CO2 evitadas.

Estima-se que para cada MW instalado 15 postos de trabalho (diretos e indiretos) sejam gerados ao longo da cadeia produtiva. A presidente da Abeeólica explica que isso ocorre porque independente de onde a usina está localizada, a estimativa de empregos se dá considerando todas as fases do projeto, desde o desenho do empreendimento até a sua instalação, incluindo a fabricação das peças e componentes, que podem estar, por exemplo, no sudeste brasileiro. “Dessa forma, poderíamos dizer que o total de capacidade instalada no RN (2,92 GW) foi responsável por gerar mais de 40 mil postos de trabalho, os quais não necessariamente foram no Estado”, afirma Gannoum.

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Ainda segundo dados da Abeeólica, o potencial eólico brasileiro atual é mais de três vezes a necessidade de energia do país. Somando todas as fontes de energia (nuclear, hídrica, térmica, eólica e outras), a capacidade instalada do Brasil é da ordem de 150 GW e somente de potencial eólico são estimados cerca de 400 GW. Em termos de capacidade instalada acumulada atualmente o Rio Grande do Norte lidera o setor.

Milton de Araújo comenta que as terras que sediam parques eólicos no RN normalmente não são propícias para agricultura. Ele explica que em 300 hectares de terra nem 10% é cultivado. “O arrendamento é uma renda considerável que antes não era possível porque as condições são adversas. Eu diria que das oportunidades com a energia eólica é a redenção. É uma renda vitalícia. Um rio de vento”, comemora o potiguar.

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A MDA Serviços tem contratos de pelo menos 50 áreas arrendadas no Estado. Araújo comenta que é gratificante ver que todos os proprietários de terras estão bastante felizes. “É uma renda que outrora não existia. A terra não gerava nada. E certamente os contratos serão renovados. É um royalty por toda vida”. Ele comenta que normalmente na fase de estudos da área para instalação de um parque eólico o proprietário recebe um salário mínimo e depois este valor aumenta.

A capacitação de pessoas para atuar na energia eólica é feita nos institutos federais, Senai, Sebrae, universidades federais etc. Ricardo Dosso aponta outros benefícios como reforço do sistema elétrico local e melhoria da qualidade de energia disponível (atração de empresas de médio e grande porte), legado para os moradores com a construção de vias e educação ambiental, feita pela Copel com as comunidades locais.

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Fonte: Revista Bzzz

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